O centro de Aracaju ainda acorda cedo. Os transportes ainda estão lotados de trabalhadores, a pressa costuma ser frequente, e o barulho que aquela região faz ainda revela uma força, mas não por muito tempo. Quando o sol vai embora e o expediente anuncia o seu fim, aquele lugar muda de ritmo. Os esbarrões entre as pessoas viram passagem tranquila, e a circulação vira vazio.
O lugar planejado para ser o coração administrativo e simbólico da capital revela o paradoxo de diversos processos de exclusão ao longo dos anos. As memórias, estruturas e abandonos visíveis nos imóveis constroem, dia após dia, o abandono de um espaço que nasceu para ser ocupado.É o lugar que acolhe Zélia Caetana dos Santos, feirante há mais de 30 anos, mas que gera receio em Lype Aragão, que frequenta o centro durante o dia, mas evita circular durante a noite.
Zélia relembra com saudade a época em que começou a vender na região central: “De primeiro, aqui era tudo cheio. Aqui era bom, bom de vender e tudo”. Hoje, ela afirma que a permanência já não significa estabilidade e relata não ter vontade de continuar ali por muito tempo: “Hoje a gente está pagando para trabalhar.”
Já a realidade de Lype Aragão é a de alguém que deseja reencontrar no centro um espaço possível de lazer, ainda que em horários estratégicos. No momento da entrevista, ele aguardava o início da sessão no Cine Walmir Almeida e avaliou que iniciativas culturais poderiam manter o centro mais frequentado e, consequentemente, mais seguro: “Ia trazer um movimento maior para o local e onde tem mais gente a gente se sente mais seguro também.”
O centro que coexiste entre emprego e lazer é o mesmo centro que se recolhe. Pensar em caminhos para reviver esse espaço é discutir qualidade de vida para os moradores e direito de ocupar a cidade, para que deixe de ser o lugar das faltas e volte a ser um território de novas possibilidades.